As rotas da seda – Peter Frankopan

Postado em: 08/03/2018

Uma nova história do mundo

LIVRO

Uma maravilhosa investigação dos elementos que constituíram a força animadora no passado: projetos do surgimento e do desaparecimento de impérios terrestres que determinaram a corrente das ideias e das mercadorias – e que ainda as determinam no século 21.

Peter Frankopan estudou História em Cambridge e, desde o ano 2000, é diretor do Centro de Pesquisas Bizantinas na Universidade de Oxford. Primeiro, ele escreveu A Primeira Cruzada. Ele conta no prefácio desse livro que na escola a História somente dizia respeito à Europa Ocidental e a América: praticamente não se falava sobre o resto do mundo.

No mapa dependurado acima de sua cama, a Europa tinha um lugar central. Mas o que acontecia no Leste? Foi então que ele resolveu pesquisar. No mappa mundi da catedral de Herford ele viu Jerusalém colocada bem no meio, como centro do mundo; a Inglaterra figurava como um apêndice em um lugar qualquer, à margem. Então, encontrou mapas que mostravam o Mar Cáspio no centro. Em um mapa medieval da Turquia, observou até mesmo uma cidade que hoje já desapareceu, mas na época era tão importante que era representada como sendo o centro do mundo.

Sua curiosidade com relação aos grandes reinados do Leste ficou mais aguçada: seu interesse pelo crescimento do cristianismo a partir de uma ótica asiática foi estimulado, assim como sua curiosidade a respeito do modo como o Afeganistão e a Índia perceberam as duas guerras mundiais. Logo ele começou a investigar uma nova História, de um novo ponto de vista.

Para poder redescobrir o mundo, aprendeu russo e árabe. Descobriu que durante milhares de anos o eixo da história do mundo havia percorrido a região entre o Oceano Pacífico e a Europa. Esse ponto entre o Leste e o Oeste encontrava-se no cruzamento das civilizações ocidental e oriental. Assim, no país dos indianos, as cidades de Harappa e Mohenjo-Daro foram, há 5.000 nos, as maravilhas do mundo da Antiguidade.

Outros grandes centros de civilização foram Babilônia, Nínive, Uruk e Akkad. Nelas germinaram as grandes religiões mundiais: o judaísmo, o cristianismo, o islamismo, o budismo e o hinduísmo. Ali aconteceram conflitos contínuos entre as culturas e se constituíram os grandes impérios que ruíram em seguida. Ali as rotas que cobriam milhares de quilômetros formavam uma rede que se estendia para todos os lados – e, nelas, peregrinos, guerreiros, nômades e mercadores viajavam. Nessas rotas eram vendidas as mercadorias e produtos; nelas, as ideias eram intercambiadas, adaptadas e aperfeiçoadas. Essas rotas nem sempre levavam à prosperidade: elas também traziam a morte e a violência, as doenças e as catástrofes.

Com referência ao comércio da seda, que aconteceu durante séculos, os viajantes inventaram, no século 19, o nome de Rotas da Seda. Essas rotas funcionavam como um sistema nervoso central do mundo. Uma visão geral de todas essas interconexões nos permite compreender como a história do mundo aconteceu, como culturas, cidades e pessoas se desenvolveram, como civilizações brilharam e desapareceram.

De 2.500 a.C. até 1.500 d.C. ocorreu nessa região um período de impressionante riqueza. Assim foram 4.000 anos de história – mais precisamente até 1492. Depois da descoberta da América, a Europa já era uma região isolada: tornou-se eixo de um sistema de comércio, transporte e comunicação que se ampliaria muito rapidamente. A Europa tornou-se o novo ponto central entre o Leste e o Oeste. E agora, no século 21, o ponto focal vai novamente se deslocar.

 

 

As novas “rotas da seda” são as redes de oleodutos de milhares de quilômetros de comprimento e as linhas férreas transcontinentais, como Yuxinu International, com a extensão de 10.300 km, da China até Duisburg, na Alemanha. Trens que podem chegar a 700m de comprimento transportam milhões de notebooks, calçados, roupas etc. – e isso em 16 dias, tempo considerado bem mais curto do que uma viagem por mar.

Há projetos sendo estudados no sentido de construir linhas férreas que, atravessando o Irã, a Turquia, os Bálcãs e a Sibéria, levarão até Moscou, Berlim e Paris. Também seria possível criar novos trajetos entre Pequim (Beijin) e Paquistão e também entre o Cazaquistão e a Índia. E, quando o túnel previsto para passar sob o Estreito de Bering for aberto, muitos trens irão passar unindo a China ao Alasca e o Canadá até os Estados Unidos. Afinal, a viagem através do mundo ainda continua e ainda segue em frente.

A partir das primeiras Rotas da Seda foram surgindo outras, todas muito bem descritas: a Rota dos Escravos, a Rota do Ouro, a Rota da Prata, a Rota para o norte da Europa, e ainda encontramos capítulos que falam sobre rotas que levam a crises, a guerras, a genocídios, a tragédias. É algo que nos deixa mudos de estupor!

Quando terminamos o livro que relata quase 5.000 anos de História, precisamos utilizá-lo como referência. É uma oscilação contínua entre guerra e paz, cultura e civilização, barbárie, crueldade, destruição e reconstrução sempre renovadas em um fluxo contínuo.

Percebemos cada vez mais intensamente o modo como a humanidade sempre é impelida a caminhar no globo terrestre: de situações de paz e tranquilidade, de opulência e bem-estar, ela é periodicamente lançada rumo a estados de tensão e guerras, catástrofes e epidemias. Os soberanos tornam-se escravos, os poderosos são subjugados. Surgem religiões que, por sua vez, são derrubadas por outras. Sim: o ser humano precisa passar por experiências, geração após geração, em condições de opulência extrema e pobreza inimaginável.

Os extremos sempre podem ser encontrados em todas as partes do globo terrestre. Principalmente as 200 primeiras páginas que descrevem o período anterior a 1492 são uma revelação para nós, leitores ocidentais. Frankopan nos mostra que todos os cronistas ocidentais nos apresentam uma imagem unilateral dos povos selvagens das estepes, mas isso não passa de uma parte da história.

O capítulo intitulado As Rotas da Fé revela que não eram somente as mercadorias que percorriam as artérias vitais que, na Antiguidade, uniam o Oceano Pacífico, a Ásia, a Índia, o Golfo Pérsico e a região do Mar Mediterrâneo. Todas as invenções e ideias passam por elas. Caravanas de até 800 camelos, passando por estepes e desertos, de oásis em oásis, ao longo de uma fileira de cidades, sempre levavam sábios e homens cultos. E as ideias mais poderosas eram as crenças religiosas.

A conclusão a que podemos chegar ao ler esse livro é a de que, por essa razão, é muito lógico que o maniqueísmo de Mani (216-276) tenha podido estender-se e tornar-se uma religião mundial em um tempo recorde, do Oceano Atlântico até o Pacífico. No entanto, o maniqueísmo também naufragou, assim como o culto divino a Zoroastro (Zaratustra), para quem os templos de fogo foram erigidos em toda a Pérsia e até Roma.

Se há algo que podemos perceber também nesse livro é a Lei de Panta Rhei: tudo flui, tudo é sempre transformado para dar ao ser humano a oportunidade de vivenciar novas experiências. No entanto, há algo que permanece imutável e mantém-se o mesmo: a busca da humanidade no sentido horizontal e vertical – a busca da felicidade terrestre e celeste. ◊

As-rotas-da-seda

Pentagrama no 3 /2017