As razões da viagem de Cristiano Rosacruz a Damcar e Fez

Postado em: 08/02/2018

Ensaio

A Idade Média ainda projeta suas sombras. Mas um jovem de dezesseis anos, educado no interior do recinto de um monastério alemão, parte em viagem. Ele se dirige a Damcar, a Fez, a um mundo de grande riqueza em ciência, comércio e diversidade.

Lemos na história de Cristiano Rosacruz que um jovem de dezesseis anos, educado entre as paredes de um mosteiro alemão, faz uma viagem. Quando seu mentor morre, ele não quer interromper sua jornada, e continua resolutamente. Ao motivo pelo qual ele o faz, falta uma resposta lógica. Pode-se presumir que ele seja guiado por uma energia protetora e esclarecedora.

Sua tarefa interior era reunir todo o conhecimento do mundo antes de cumprir sua própria missão. No entanto, ele não podia avançar com o que estava à sua disposição por meio da ciência de seu país natal. De fato, o lado sombrio da Idade Média projetava ali sua sombra.

No caminho, Cristiano é como por acaso confrontado com males físicos, e isso quando estava prestes a chegar a Damcar. Ignora-se a que cidade ou lugar esse nome se refere. Não se trata de Damasco, mas bem poderia ser a antiga cidade de Petra. Compreendemos pelo seguir da história que a sabedoria do mundo inteiro conhecido naquela época ali estava reunida.

É dito também que Cristiano não era desconhecido ali, sendo mesmo esperado. Além disso, ele se beneficia de toda a colaboração, o que lhe permite adquirir numerosas formas de conhecimento. Ele aprende entre outras coisas a língua árabe; ele estuda a física e as matemáticas, e faz uma tradução do livro M em latim.

Ele permanece por três anos em Damcar antes de seguir viagem. Após atravessar o golfo pérsico, ele se detém no Egito, onde o estudo dos fenômenos da natureza o ocupam particularmente. Mas esse não parece ser seu destino final, pois ele não permanece ali por muito tempo. Voltando pelo mar Mediterrâneo, nosso viajante toma a seguir o caminho para o Marrocos, onde, em Fez, trava conhecimento com os “habitantes originais”.

O que nos parece estranho é que, nessa cidade, a cada ano, era organizada uma reunião com os árabes e os buscadores de outras nacionalidades. Cristiano aproveita bastante tudo isso, observando que a magia deles não é de fato pura e seus conceitos estão contaminados por suas crenças religiosas. Apesar disso, ele encontra ali a base precisa para fundar uma fé que deve, de fato, estar em correspondência com a harmonia do mundo inteiro.

Tenhamos em mente que a irradiação do mundo árabe na época da Idade Média não deve absolutamente ser subestimada. A partir do ano 750 d.C. até aproximadamente em torno do fim do século 10, praticamente todos os escritos – tanto literários quanto históricos – provenientes da Grécia, do império bizantino e do Oriente Próximo foram traduzidos para o árabe, o que permitiu que fossem guardados para a posteridade.

Além disso, havia também escritos de ordem astrológica, alquímica e de um tipo secreto bem como obras relativas à aritmética, à geometria, à astronomia, à música, e mesmo referentes aos domínios mais concretos, como a física, a biologia e a botânica. Encontravam-se aí igualmente livros sobre saúde, farmacologia e medicina, tanto geral como veterinária.

Graças ao enorme trabalho de tradução realizado na época, dispomos também atualmente de tratados de filosofia, metafísica, ética e lógica, frequentemente de tendência aristotélica. Isso pede um comentário de ordem histórica: esse considerável trabalho de tradução, estabelecido por dois séculos, ocorreu principalmente em Bagdá e teve início quando os abássidas perseguiram os sassânidas do império persa (224-651) e tomaram o poder.

Sua campanha de conquistas começou por volta de 660, ou seja, 30 anos após a morte do profeta Maomé, no ano 632, e teve seu apogeu com a anexação de todos os territórios que, mil anos mais tarde, pertenceram então a Alexandre o Grande, mas que foram ocupados sucessivamente pelos romanos e pelos bizantinos. Trata-se de um vasto espaço que se estende desde a Ásia central e o subcontinente indiano até a Espanha e os Pirineus, e desde a Pérsia até o Egito, passando pela Mesopotâmia, a Síria e a Palestina.

Foi a primeira dinastia islâmica que conseguiu reunir sob seu governo político, administrativo e econômico um território tão grande. Durante a formação do Estado abássida, além do Islã que crescia em poder, a ideologia estatal persa também se fez prevalecer. Os novos dirigentes não tomavam sozinhos o poder. Não somente os persas sassânidas contribuíram para isso, mas também os zoroastrianos persas cujos conquistadores retomaram a ideia de um Estado forte impregnado da antiquíssima religião zoroastriana.

Entre os abássidas na Pérsia uma troca de ciência, arte e conhecimento florescia

Entre as cidades desse imenso império prosperaram como jamais, intensas trocas comerciais e, consequentemente, também um rico intercâmbio de conhecimento. Estes últimos tornaram-se possíveis pela fabricação do papel introduzida graças aos prisioneiros de guerra chineses. No império abássida, o papel excluiu rapidamente todos os outros suportes de escrita.

Era diferente do lado do império romano do Oriente de Constantinopla, o qual ainda fazia valer sua influência. Já responsável por cismas anteriores e pela explosão dos cristãos sírios e nestorianos, Constantinopla mantinha sua oposição a toda forma de ciência e de filosofia, o que a isolava cada vez mais do ponto de vista político e geográfico.

Enquanto durante a dominação dos omíadas a língua grega bizantina era ainda a língua administrativa, Constantinopla já não tinha poder senão sobre cristãos ortodoxos de língua grega. Assim, as outras populações helenistas eram impelidas para os braços dos soberanos árabes. Entretanto, na comunidade árabe, são fundados os primeiros centros de instrução e universidades. Paralelamente são criados importantes espaços religiosos de origem nestoriana e zoroastriana.

Independentemente de suas línguas e nacionalidades, os estudiosos persas, gregos, sírios e indianos colaboram de modo intenso, assim como os representantes de todas as tradições científicas e os especialistas de diversas disciplinas. Eles se relacionam, seja por contato direto seja através de uma importante correspondência epistolar, e partilham entre si as riquezas fundamentais do conhecimento. Isso explica, por exemplo, por que numerosos estudiosos se ocupam em traduzir obras de todos os tipos.

Depois que foram sucedidos pelos omíadas que reinaram desde Damasco, os abássidas mudaram seu califado para o Iraque, onde Bagdá era a principal metrópole. Desse modo, o ponto de gravitação cultural se deslocou cada vez mais para o Oriente e enfraqueceu ainda mais a influência bizantina. Desenvolveu-se uma sociedade multicultural composta notadamente por cristãos e judeus, por populações de língua aramaica, mas também persa farsi, uma vez que os árabes não eram forçosamente muçulmanos, mas, às vezes, cristãos.

Além disso, nesse contexto, as fontes espirituais antigas são sempre acessíveis. Não nos esqueçamos de que o ensinamento do profeta Zoroastro permaneceu a religião de Estado até o século 3. O coração dessa religião era o Avesta, o livro sagrado dos persas que o próprio Zoroastro pusera em palavras.

Segundo Qusta Ibn Luqa, um estudioso do século 9, a obra em questão comportava doze mil tomos, em couro de búfalo asiático e escrito com tinta de ouro. Ela continha, em numerosas línguas, todo o conhecimento do mundo. Todos os exemplares desse livro foram roubados ou mesmo destruídos por Alexandre o Grande devido a seu ciúme da riqueza da ciência persa.

Outro livro atribuído ao profeta – o Livro dos Horóscopos – foi traduzido da antiga escritura do Avesta em farsi pelo persa Mahankard, pelo menos o que restou depois do auto-de-fé. Pouco tempo depois de os árabes abássidas haverem estendido seus domínios, esses livros foram preservados de uma perda irremediável graças à sua tradução em árabe sob o título de Kitab al Mawaid. Conforme já dissemos, essa diversidade contrastava, portanto, muito fortemente com a influência bizantina que se desvanecia.

No século 16, o autoritário imperador cristão Justiniano mandou fechar a academia platônica de Atenas e as que subsistiam. Os remanescentes da ciência e da sabedoria da Europa foram, assim, ainda mais impelidos para a Ásia. Numerosos nestorianos já haviam fugido para a Pérsia quando seus conceitos considerados heréticos foram condenados pelo concílio de Calcedônia em 455.

Os pensadores gregos e os estudiosos não cristãos foram acolhidos de braços abertos pelo dirigente persa Khusraw I (531-576). De fato, este procurava fundar academias no modelo das de Alexandria, como a de Jundi Sabur, que alcançara notoriedade. Nas universidades fundadas pelo rei Chosroes Anursirvan (531-580) foi introduzido o “curriculum alexandrino”, compreendendo um conjunto de 16 tratados de medicina de Galeno.

Além dos cientistas indianos, Chosroes acolheu ali também os que haviam fugido do imperador Justiniano. Isso representou um estímulo importante para a integração do conhecimento helenístico e indiano no campo linguístico árabe. Um de seus principais argumentos para a obra de tradução e, grande escala dos escritos antigos era que os árabes muçulmanos se deram conta de que lhes faltava conhecimentos para conduzir debates com seus diferentes opositores religiosos.

                                            

Em seus primórdios, o Islã sofria a falta de uma teologia significativa. Por isso a tradução da doutrina dos argumentos da obra filosófica Tópicos de Aristóteles caiu muito bem. Portanto, era por razões ambíguas que os califas se apresentavam como verdadeiros mecenas da antiga filosofia grega.

Além disso, eles se puseram a traduzir do sânscrito importantes escritos astronômicos e astrológicos antes traduzidos em língua pahlavi pré-islâmica. Graças a esse interesse cultural, Bagdá se tornou a interseção intelectual de muitas culturas. Essa cidade foi concebida em forma circular sob a direção do califa Almançor (754-775), talvez segundo os princípios da geometria euclidiana.

Dizia-se que certas portas da cidade haviam anteriormente sido utilizadas numa cidade que Salomão fizera construir próximo do atual sítio arqueológico de Wasit no Iraque. Outras portas provinham de templos egípcios. Na vizinhança imediata de Ctesifonte, antiga capital dos sassânidas e lugar de nascimento de Mani, a proveniência dessas portas tinha um significado maior, tanto para os omíadas como para os judeus, os cristãos e os egípcios. Bagdá não se tornara apenas um símbolo tangível do poder da dinastia sassânida sobre numerosos povos, religiões e tradições, mas se orgulhava também de ser a herdeira do rico passado de todo o Oriente Próximo.

Simultaneamente, a partir de 743, pode-se notar um movimento inverso. O zelo missionário do Islã começou a se elevar. Os abássidas mostraram-se rapidamente partidários de uma religião única, o que desencadeou rapidamente violentas reações opostas. No início, sobretudo sob a forma de debates e vivas disputas. Desse ponto de vista a tradução das antigas obras gregas e outros escritos representava um valor agregado. Com efeito, eles eram instrutivos e úteis para vencer, mediante argumentos sólidos, os oponentes pouco firmes do ponto de vista doutrinal.

Al Mahdi, sucessor de seu pai Mansur desde 775, esforçou-se ardentemente para exterminar todos os conceitos separatistas. Assim fazendo, ele visava principalmente a religião de Mani, muito difundida no mundo de então. ◊

Por volta do ano 750, surgiram os primeiros centros educacionais e universidades na Comunidade Árabe

DISPUTAS INTERRELIGIOSAS
No tempo de Al Mahdi, surgiram os heréticos e apóstatas que falavam abertamente de sua fé. Eles liam obras escritas por Mani, Bardesanes e Marcion traduzidas do persa reformado e do pahlavi, falavam de escritos e de ensinamentos que sustentavam as teses desses três autores. Logo o número dos maniqueístas cresceu e suas opiniões foram pregadas em público. Al Mahdi foi o primeiro califa a ordenar aos teólogos que usassem a razão (al-gadaliyyin) em suas pesquisas para redigir obras que combatessem os heréticos e outros incrédulos. Esses teólogos produziram então um impressionante arsenal de provas para neutralizar os disputadores (mu’anidin); eles eliminaram os problemas estabelecidos pelos heréticos e, em terminologia simples, expuseram a verdade aos que duvidavam. (Mohammed al-Horasani al Ahbari).
 
Entre os judeus e os cristãos ergueu-se também viva oposição que se apoiava numa experiência secular de força verbal. O peso das disputas inter-religiosas encontra-se no número incalculável de suas traduções árabes que chegam a nós. No século 7, esse tipo de debate constituía uma importante forma de comunicação nos conflitos que envolviam calcedônios, monofisistas e nestorianos. Mas todo esforço islâmico estava voltado contra a religião de Mani, que era predominante. As diversas correntes espirituais dualistas ativas nessa época ocupavam na historiografia árabe um lugar preponderante como jamais haviam ocupado até então. E não esqueçamos que elas constituíam, no seio dessa cultura, elementos estrangeiros, pois todas essas correntes remontavam às raízes persas do zoroastrismo. Infelizmente, as medidas drásticas de Al Mahdi e as subsequentes perseguições conduziram a seu desparecimento total no século 10.
AVICENA E O INÍCIO DE UMA NOVA CONSCIÊNCIA
Era já o início do século 11 quando o trabalho de Avicena (Ibn Sîna) suscitou igualmente uma violenta polêmica no interior do mundo filosófico do Islã. Ela ocorreu entre muçulmanos dos ramos sunita e xiita e durou três séculos.
Uma produção literária muito abundante é testemunha. Foi nessa época que, fundamentado na adaptação da filosofia grega de Avicena, se desenvolveu um totalmente novo sistema intelectual. Esse sistema de pensar foi o responsável pela entrada de uma grande dos conceitos aristotélicos no pensamento xiita.
 
Descobrimos junto à ideia de Deus, uma compatibilidade entre opiniões emprestadas, de um lado da filosofia grega e, de outro, do conhecido sofismo. Opiniões que tiveram bela eclosão na Pérsia e, sob o domínio otomano, apoiadores do século 16 ao 18.
Seriam esses os estudiosos que C. R. C. encontrou no caminho de sua surpreendente viagem pelo mundo árabe? Foram eles que se colocaram a seu serviço a fim de preparar sua reforma geral do mundo? Sua síntese não é, entre outras, destilada no cadinho das tradições filosóficas clássicas, do paganismo árabe, do judaísmo, do cristianismo, do gnosticismo, do hinduísmo e de todas precedentes culturas e tradições como o zoroastrismo? Não o sabemos com certeza, mas podemos pressupô-lo.
Do que temos certeza é das consequências conforme indicadas no final do livro O Chamado da Fraternidade, ou seja, que isso contribuiu para estimular progressivamente uma nova consciência na Europa.

                                                                                                                       

DAMCAR E FEZ
Tendo alcançado a idade de dezesseis anos, Cristiano tomou o caminho de Damcar onde era aguardado pelos estudiosos. Ele aprendeu a língua árabe e adquiriu conhecimentos em física e matemática. Ele traduziu o Livro M para o latim. Três anos mais tarde, ele retornou, atravessou o Golfo Pérsico para chegar ao Egito. Durante sua breve estadia, estudou o que concerne à natureza.
Ele atravessou o Mediterrâneo até Fez, onde, a cada ano, os árabes e os africanos se reuniam para se consultar sobre eventuais novidades descobertas ou outros modos de ver, os estudiosos de Fez eram os mais eruditos em matemática, física e magia. Lá, Cristiano também travou conhecimentos com os “habitantes originais”, conforme os chamava, e dos quais aprendeu muitas coisas. Dos habitantes da cidade ele também aprendeu muito, porém acreditava que sua magia não era pura e sua cabala estava contaminada pela religião. Apesar disso, ele encontrou ali a base precisa para fundar uma fé que devia, de fato, estar em correspondência com a harmonia do mundo inteiro.

                       

ZOROASTRO
A propagação do ensinamento de sabedoria persa do profeta Zoroastro (ou Zaratustra) remonta provavelmente a dez séculos a. C.. A característica desse ensinamento é, exceto a fé em Ahura Mazda, o Deus supremo, o dualismo severo onde estão em oposição duas forças cósmicas, uma delas a do mal encarnado por Arimã.
Esse ensinamento chegou a nós proveniente dos hinos Gathas que se encontram no Avesta, influenciando todo o mundo antigo, entre outros o mitraísmo e o maniqueísmo cristão. Na época moderna, o nome de Zaratustra ressurge na filosofia de F. Nietzsche e de seu livro Assim falava Zaratustra.

    

A INFLUÊNCIA DE MANI ATUOU ATÉ O SÉCULO 10
É notório que os maniqueístas viveram ainda na Mesopotâmia até o século 10 d.C.. O maniqueísmo é considerado a mais elaborada forma de gnosticismo. O profeta Mani (também chamado Manes) nasceu no ano 216. Durante certo tempo, ele fez parte de uma organização masdeísta relacionada ao ensinamento de Bardesanes. Um dia, ele teve a visão de seu “irmão gêmeo”, seu “alter ego”. Encontramos os ensinamentos do próprio Mani principalmente nos Kephalaia bem como nos magníficos hinos ou salmos compostos por ele.
 
Mani foi para a Índia passando por Ctesifonte e Belabad. O fato de a religião dos maniqueístas ter tido grande número de adeptos até na China demonstra que ele fez, durante certo tempo, concorrência às grandes religiões do mundo. Assim como nos ensinamentos de Zaratustra, encontramos no cerne da doutrina de Mani, a oposição entre o reino da luz e o das trevas. Embora sustentado inicialmente pelo rei Shapur I, Mani foi, no entanto, aprisionado e morreu no ano 276 ou 277. Assim no mundo cristão como no do islã, seus adeptos foram violentamente perseguidos.

Pentagrama no 3 / 2017