Filósofo teutônico, mas também rebento vigoroso da estirpe de Cristo
Considerado um dos maiores representantes das correntes místicas e teosóficas da Alemanha do século XVII, aprofundou-se no conhecimento gnóstico oculto nas imagens e símbolos bíblicos, que seu espírito penetrante revelou e nos ofertou em forma de um tesouro de luz. Ele foi um pensador magistral que inspirou com suas obras soberanos, sábios, artistas e inúmeras outras pessoas, e qualquer ser humano que busque a sabedoria profunda e a renovação da vida o reconhecerá como “irmão na força unificadora de Cristo”.
Como nenhum outro escritor o fez, Boehme, em seus livros, dá a conhecer à humanidade, de maneira maravilhosa, que somos todos um em Cristo segundo o nosso mais profundo ser. Ele proclamava o pensamento central hermético sobre Cristo como atividade de força autônoma: Cristo não é uma pessoa vaga em um céu distante, porém a força santificadora e curadora presente no coração de todos e que pode ser encontrado por qualquer pessoa, sem a mediação de autoridades, escrituras ou instituições.
Jacob Boehme nasceu em 1575 na aldeia de Alt Seidenburg, perto de Görlitz, em uma família camponesa luterana pobre e honesta. Seus pais eram muito simples, e assim também decorre o início da vida do jovem Jacob, o quarto filho de uma família de cinco crianças. Ele estuda em Alt Seidenburg até os 14 anos, época em que exerce a primeira profissão: pastor de ovelhas. Conta-se que, certo dia, na época em que era pastor, precisamente ao meio-dia, o pequeno Boehme afasta-se de seus companheiros de folguedo, retirando-se para uma pequena escarpa rochosa, chamada Landeskrone (Coroa da Terra), que formava um cercado natural na montanha. Ao avistar um acesso, nele entra e vê um vaso cheio de dinheiro. Amedrontado, foge às pressas sem tocá-lo e, embora tenha subido inúmeras vezes essa montanha com seus colegas, nunca mais encontra essa entrada. Podemos ver aí um prenúncio de sua vocação espiritual, pois “a montanha é um símbolo magnífico do caminho que conduz das trevas à luz. Sua base está na terra, e seu cume se eleva até o céu”.
O ensino fundamental que recebe lhe permite ler autores como Weigel, Franck, Paracelso, Schwenckfeld, e o capacita a escrever suas próprias obras. Ao terminar os estudos, inicia sua atividade como aprendiz de sapateiro, passando mais tarde a vendedor itinerante e a mestre-sapateiro em Görlitz. Em 1599, casa-se com a filha de um rico açougueiro, a qual lhe dá quatro filhos, um dos quais segue sua profissão.
Em 1600, uma experiência luminosa desencadeia sua carreira como autor visionário. Enquanto observa uma vasilha de estanho polido que refletia a luz do sol, contempla o âmago vivente das coisas, e é-lhe dado ver toda a criação. Acreditando ser vítima de uma ilusão, sai para caminhar e tentar afugentá-la da mente, porém a visão o persegue, revelando-lhe a essência das coisas por meio de linhas e formas. Em seu livro De signatura rerum (Da assinatura das coisas), ele descreve os fundamentos dessas revelações. Homem simples, jamais havia imaginado ser iniciado no que chamou de mistério divino.
Em 1612, Boehme escreve o livro A aurora nascente, no qual já se encontravam os fundamentos de sua visão. Por conta das várias cópias manuscritas dessa obra que começaram a circular em Görlitz, ele é expulso pelo magistrado da cidade por conta da oposição que o pastor da cidade, Gregor Richters, lhe devota. Posteriormente, por influência da nobreza local, a ordem do magistrado é revogada, e Boehme volta a morar em Görlitz e a trabalhar em sua profissão, com a condição de não escrever mais sobre assuntos teológicos. Jacob viu-se obrigado a manter silêncio por sete anos, que, para ele, foi um longo sabá, pois estava cônscio de que tinha ainda muito o que transmitir de sua mensagem.
Movido por um impulso interior, e sob o estímulo de amigos versados em ciências naturais, que o aconselharam a continuar sua obra, Jacob Boehme volta a escrever em 1618, compondo, em cinco anos, uma surpreendente quantidade de livros. Em 1624, perseguido devido à publicação do livro O caminho para Cristo, Boehme refugia-se em Dresden, onde é acolhido na corte do príncipe-eleitor. Embora seja considerado inofensivo, é tratado mais como curiosidade do que segundo o seu real valor. Decepcionado, ele volta a Görlitz, onde certamente novas provas o acossariam, caso não tivesse falecido prematuramente de causas naturais aos quarenta e nove anos, em novembro daquele mesmo ano.