Trabalhar em conjunto, buscar individualmente

Postado em: 11/10/2018

JIDDHU KRISHNAMURTI (filósofo indiano 1895-1986)

“O eu, o ego, não é duradouro: ele é uma ilusão, um aglomerado de propriedades, um centro de virtudes, de pecados e de ideais, uma circunferência com início e fim. Esse eu toma forma por meio dos sentidos, das emoções, da percepção. Desta última nasce o pensamento, que produz a consciência da qual provém o ser separado, que é o eu.

O eu não existe em si, não é algo que sente por ele próprio; você sente, e assim o eu é criado; você pensa, e assim o eu se cria; você tem fortes emoções, e isso cria o eu. O eu não existe em si; o eu não é algo que sente por ele mesmo: não é o eu que sente e pensa.

O eu não passa de uma organização, uma confluência existencial material do corpo emocional com a percepção e o pensamento, que, juntos, se tornam consciência. Essa consciência do poder do pensamento cria o eu. É ela que faz você dizer: eu desejo existir. É por isso que você diz: eu sinto, eu penso, eu percebo, eu sou consciente.

Se você busca a Verdade, é porque possui os órgãos dos sentidos, no entanto, o poder de pensar não gera o eu por meio desses sentidos. Você precisa poder observar: a observação é a faculdade de distinguir, de fazer triagem. Contudo, não será por intermédio dessa triagem que o eu vai tomar forma. Você precisa pensar, mas com o pensamento. No entanto, não será pelo pensamento que o eu vai surgir.

Logo, a consciência nada mais é do que uma consciência-eu: ela é somente a combinação estruturada de todas essas coisas que constituem o eu. Mas, para termos consciência dessa densidade como deveríamos ter, precisamos começar a assumir responsabilidades. Primeiro, é necessário pensar e sentir por si próprio. O eu é uma ilusão e, se você baseia toda a civilização, seus pensamentos, sua cultura, seus relacionamentos e sua conduta nessa ilusão, não será capaz de compreender a Verdade, não poderá viver na totalidade, na plenitude.

Você é apenas um prisioneiro da ilusão da separatividade, que é a causa do sofrimento. Mas logo que você percebe a origem disso, seu ponto de vista muda completamente e, consequentemente, seu comportamento e sua cultura também.

O eu não passa de uma organização, uma confluência existencial material do
corpo emocional com a percepção e o pensamento, que, juntos, se tornam consciência

Toda e qualquer exploração, de qualquer natureza que seja, tem origem na separação, que acentua a diferença entre “o seu” e “o meu”. A exploração espiritual vem do fato de que você exteriorizou a Verdade e é a razão pela qual é preciso um mediador que possa lhe explicar essa Verdade. O mediador assim criado por você mesmo é um explorador que emprega sua autoridade para fazer perdurar o círculo da consciência-eu.

Da mesma maneira, esse contexto – que é o círculo de densidade do egoísmo chamado de moral – não passa de um modus vivendi entre indivíduos e classes, estados e povos. Essa moral é fundamentada na autoridade, e essa autoridade somente amplia o círculo da consciência-eu que o mantém prisioneiro. Nesse círculo, que é a fonte de todos os seus pensamentos, suas motivações para agir são: a glória, a consolação, o prazer, a vaidade, o luxo, o entusiasmo e o dinheiro.

Enquanto seus pensamentos, sentimentos, sua disponibilidade e a organização de sua vida diária estiverem baseados no egoísmo, na densidade, você será forçado – até certa medida, por menor que seja – a ser escravo de todas essas coisas.

Você acredita que pode atingir a Felicidade, a Realidade, pela expressão de si mesmo, pelo trabalho, pelo acúmulo de posses, sendo que a Realidade jamais poderá ser percebida com tentativas coletivas ou por agentes libertadores.

Porém isso somente vai acontecer a partir de seu esforço individual. Quando você conseguir compreender isso, vai organizar sua vida de outra maneira.

Até aqui você tentou chegar à Verdade coletivamente. E, praticando tarefas que só podem ser realizadas em grupo, você quis manter sua individualidade e a expressão de si mesmo. Eu agora digo que você deve trabalhar coletivamente e buscar a Verdade individualmente, com total independência!

Quando baseamos nossa vida toda nessa forma de ver as coisas, já não acontecerá a exploração das pessoas mediante egoísmo, cobiça ou confusão entre a busca individual dessa Verdade e o trabalho coletivo, que só pode ser executado com a colaboração de diversos grupos.

Organize e trabalhe coletivamente, mas busque a Realidade individualmente. Em outras palavras: abandone todos os ideais que construiu por egoísmo e que estão assentados na concepção errônea de que você pode chegar à Verdade por intermédio de uma autoridade espiritual, pelo esforço de outra pessoa, por meio de uma instituição ou pelo fato de fazer parte dela”. 31 de Julho de 1931 ◊

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Pentagrama no 1 / 2018