Paradoxo

Postado em: 12/10/2017

Coluna

Um paradoxo é definido como “uma oposição aparente”. Aparente? Portanto, a partir das oposições, poderíamos encontrar a unidade em outro nível. Encontramos um excelente exemplo no Tao Te King: “O Tao não age em toda eternidade e ainda assim não há nada que Ele não realize”. Para um aluno, wu-wei significa “agir no não-agir”. Um paradoxo não é uma contradição. Afinal, em uma contradição as duas oposições se excluem mutuamente.
Um paradoxo, ao contrário, tem a possibilidade de expandir nossa consciência. Como tal, ele pode ser uma pergunta, um exercício, um koan1.
 
A palavra paradoxo vem do Grego para = contra e doxa = opinião comum, já esperada. Então, ele é algo que vai de encontro àquilo que esperamos. É uma verdade que vira as costas para nós, justamente para chamar nossa atenção.
Assim, há em um paradoxo uma oportunidade de aprendizagem, pois o que nos aprisiona são justamente nossas expectativas e convicções.
É por isso que a fórmula da felicidade talvez seja F = R - E. Felicidade = Realidade - nossas Expectativas.
Neste mundo, um paradoxo é algo contraditório. Mas, ao observarmos a questão mais de perto, verificamos que o paradoxo contém uma verdade profunda, implícita, que vai se desenvolvendo em uma direção espiritual.
Para termos acesso a essa verdade, precisamos primeiro superar nossos paradoxos pessoais. A partir de um paradoxo, a Vida nos aponta: “você pode / você deve fazer algo com isso”.
Por exemplo: para compreendermos os ensinamentos, precisamos pensar, mas os pensamentos também são um grande obstáculo, pois a mente age de forma tão autônoma que não nos dá sossego.
Ou ainda: algo nos diz para guardarmos um pensamento e algo diferente dentro de nós quer que o abandonemos.
Ou ainda: eu tenho pensamentos, mas não sou meus pensamentos - afinal, o que é que eu sou? 
Aqui está um grande paradoxo de Buda: "Pare de mudar e entregue-se àquele que nunca muda - e é ele que vai mudar você".
 
Mas, então, como decifrar esses enigmas? Como resolver esse quebra-cabeça?
Em um paradoxo, os opostos são também uma unidade. E isso é o que podemos observar claramente na lemniscata, aquele sinal do oito deitado ou em pé, pelo qual as oposições se encontram no meio, no nível do cruzamento. É o yin e o yang em uma troca eterna. É uma energia dual contínua de ação-reação – e isso ad infinitum et ultra (até o infinito e além). Essa noção pode ser traduzida de duas maneiras: “aquilo que continua eternamente” mas também “rumo à eternidade”. E aí está outro paradoxo!
A questão que agora se coloca é a seguinte: como trabalhar com eficiência a partir de paradoxos? Nosso primeiro passo será mantermos distância e observar, continuar a observar com base em nossa consciência, indagando a nós mesmos: “Qual é o paradoxo que aparece sempre, regularmente, em minha vida? O que a vida quer me ensinar com isso?”
A resposta não pode trazer como resultado uma unificação em nível terreno, porque a tese chama imediatamente a antítese – mas trata-se aqui de uma transformação-por-ligação, de uma mutação que conduz a outro nível de consciência e que continua até o centro da lemniscata, onde já não há movimento, apenas repouso, quietude – quietude que promove contemplação por meio da consciência. A contemplação leva à compreensão, que é o primeiro passo para ultrapassarmos a porta do caminho espiritual – a Porta do Meio. É assim que caminharemos em direção ao Ser Consciente com base em nossa própria consciência, estando bem conscientes disso.
Não podemos resolver nossos problemas existenciais no mesmo espaço onde eles nasceram (e talvez aí esteja a essência do paradoxo). Para chegar a isso, precisamos abrir outro espaço”. (Einstein) ◊
 
1Koan: Enigma usado na tradição Zen para parar o pensamento racional e desse modo alcançar a Consciência.

É por isso que a fórmula da felicidade talvez seja F = R - E

Pentagrama no 2 / 2017